Quem disse que a paixão só dura dois anos?

Cientistas descobrem que chama cerebral da paixão pode se manter acesa por décadas

Eis uma boa notícia para começar o ano: um estudo apresentado na reunião anual de 2008 da Society for Neuroscience, nos EUA, mostra que o cérebro de pessoas ainda apaixonadas pelo cônjuge em casamentos de cerca de 20 anos de duração responde à pessoa amada com a mesma euforia e empolgação (leia-se “ativação do sistema de recompensa”) dos casais recém-apaixonados.

A descoberta, feita pelo grupo da antropóloga Helen Fisher e da neurocientista Lucy Brown, contradiz a visão popular de que a paixão tem data de vencimento: cerca de 18 meses, segundo a imprensa, baseando-se apressadamente em um estudo sobre mudanças no metabolismo de serotonina publicado em 1999.

Helen Fisher não fazia muita questão de discordar, sobretudo devido à sua visão do amor como um vício, uma droga capaz de causar dependência – e as mesmas alterações no cérebro. A antropóloga ficou conhecida por estudos mostrando que a paixão é um estado particular do cérebro de intensa ativação do sistema de recompensa. Esse é o sistema formado por aquelas estruturas, como o núcleo acumbente e a área tegmentar ventral, que sinalizam ao resto do cérebro quando algo interessante acontece, ou tem grandes chances de acontecer, nos dando prazer e satisfação – que por sua vez nos impelem a fazer o que for preciso para que a tal coisa interessante aconteça de novo, e de novo, e de novo.

Assim acontece quando vemos a pessoa por quem nosso cérebro se enamora: os neurônios da área tegmentar ventral ficam excitados e liberam dopamina sobre os do núcleo acumbente – e com isso ficamos eufóricos e altamente motivados a encontrar lugar na agenda, faltar ao trabalho, virar madrugadas, atravessar a cidade a pé e o que mais for necessário para ficar perto daquela pessoa. Na definição de Helen Fisher, a paixão é um estado de motivação elevada, e não uma simples emoção.

E como estado de motivação elevada, ela seria por definição passageira, conforme o cérebro fosse se habituando aos níveis elevados de dopamina associados ao objeto da paixão. Em seu livro “Why we love”, Fisher não defendia o prazo de validade de 18 meses a dois anos da paixão – mas também não o refutava. Pelo contrário: no livro, Helen explica como, uma vez passada a novidade e a euforia iniciais, o sistema de recompensa arrefece. Com isso, chega de paixão: nada de arroubos intensos, de grandes esforços, de noites sem dormir. Na melhor das hipóteses, a paixão se transforma em amor (uma hipótese muito boa, por sinal!).

Mas agora ela mesma mostra que isso não é necessariamente verdade: a queda na ativação do sistema de recompensa pelo objeto humano dos nossos desejos não é inevitável, não é inexorável, não é uma consequência da própria paixão. No cérebro de 17 pessoas casadas em média há 20 anos e ainda apaixonadas por seus cônjuges, Fisher, Brown e sua equipe encontraram a mesma ativação forte no núcleo acumbente e no estriado ventral que são típicas dos casais recém-formados, além de ativação em outras áreas do cérebro envolvidas na formação de laços afetivos.

Ou seja: a paixão pode durar e, ao invés de “apenas” se transformar em amor, pode até coexistir com ele. E mais: está ao nosso alcance contribuir para manter acesa a chama cerebral da paixão por anos a fio. Como? Buscando, junto com a outra pessoa, ativar os respectivos sistemas de recompensa ao mesmo tempo, com novidades, diversão, humor, carinho, assuntos interessantes, e… sexo, que continua sendo a mais forte cola social conhecida da neurociência. Assim os cérebros amantes se mantêm motivados um com o outro, pois associam a presença da pessoa amada ao que existe de melhor na face da Terra.

Um feliz 2009 para você, leitor, e que as ativações do seu sistema de recompensa sejam duradouras!
(SHH)

Copyright © 2007, Suzana Herculano-Houzel. All rights reserved.

Fontes:
Acevedo BP, Aron A, Fisher H, Brown LL (2008) Neural correlates of long-term pair-bonding in a sample of intensely in-love humans. Program No. 297.10, Neuroscience Meeting Planner, Society for Neuroscience, Washington: DC.

Marazziti D, Akiskal HS, Rossi A, Cassano GB (1999) Alteration of the platelet serotonin transporter in romantic love. Psychol Med 29, 741-745.

Para saber mais:

Fisher H (2004) Por que amamos: a natureza química do amor romântico. Rio de Janeiro, Record.

Herculano-Houzel S (2008) Fique de bem com seu cérebro. Rio de Janeiro, Sextante.

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